sexta-feira, outubro 22, 2004

"Quantas saudades!" - ela disse.

Isso foi logo que chegou em casa, lá pelas dez da manhã. Chorou um pouco, mas não era tempo de tristeza, então ela acabou foi sorrindo mesmo.
E, sorrindo, mostrou a cicatriz na cabeça. Grande, a deixou com orelhinha de abano. Em uma orelha só, porque a outra continuava normal. Ela comentou que não pode mais passar por detectores de metal. Nem de banco, nem de aeroporto. Por ter um chip na cabeça, ela ganhou uma carteirinha especial.

A filha achou engraçado alguém ter uma carteirinha por causa de um chip. Mais engraçado ainda é alguém ter um chip na cabeça. Parece coisa de filme, né? Se ela colocar um imã - desses de geladeira mesmo - na nuca, ele gruda. Deu ainda mais vontade de rir. A filha ficou imaginando a mãe com lembretes imantados grudados na testa. Filha meio doida essa. Com tanta coisa pra se pensar, ela fica imaginando loucuras acerca de um aparelhinho. "Chip... será que a minha mãe virou um robô? Será que eu posso transferir arquivos do meu HD pra cabeça dela?". Eu hein.

Mas logo o devaneio passou, a mãe começou a contar das expectativas, pra quando o tal chip for acionado. "Caraca, o chip ainda por cima vai ser acionado!! Será que são inúmeros e enormes computadores? ...". Então, tão logo o aparelhinho for ligado - o que deve acontecer no final do mês - ela vai voltar a ouvir.

Pára tudo! Não foi mencionado nesse pretensioso texto que ela era surda! Ela é surda! E agora tem um chip na cabeça para voltar a ouvir! Ai, que loucura. Contando assim ninguém acredita. Mas é verdade, eu juro. A surdez já tem quinze anos - idade da irmã mais nova. Ela ficou doente, entrou em coma e quando recobrou a lucidez, ficou surda. Logo depois, teve um filho. Peraí, a história está perdendo o rumo de novo. Voltemos às idades: hoje, ela tem 45 anos, fazendo contas simples, concluímos que a surdez veio aos 30. Puxa, quinze anos de silêncio. Silêncio forçado, que fez com que ela ficasse um pouco à margem, esquecida, ilhada. Sem música, sem a voz do marido, sem a voz da filha mais velha, nunca ouviu um sequer som emitido pela mais nova. Sentia falta do despertador, da televisão, do barulho da rua, das buzinas, da vida.

E indagando sobre isso tudo, a filha - completamente imersa em seus pensamentos enquanto a mãe contava detalhes nojentos da operação - pensou mais uma vez no chip. "E agora, uma porra dum chip vem mudar todo o rumo da prosa...o que eu vou dizer a ela? O que eu vou dizer quando ela puder ouvir a minha voz? O que vai ser da vida agora? Da minha vida?".

Ficou o resto do dia pensando em chips e vidas e concluiu que "luz no fim do túnel" de cu é rola, o que se acendeu foi um puta dum holofote na existência dessas pessoas. Pessoas como eu.

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