E finalmente, a vida real
A verdade.
A verdade é que eu me sinto pouquíssimo valorizada.
A verdade é que não aguento mais brincadeirinhas estúpidas sobre o fato de morar na Tijuca, não quero mais falar de futebol, não me interessa o que saiu no jornal, não quero saber de quem morreu, só vou ver os filmes que realmente me interessarem, não quero mais me sentir menos capaz. Menos.
Não vou mais tentar parar de tomar Coca-Cola, não sei se vou voltar pra academia, não vou comer melhor, não vou comer quando eu não quiser comer. Não vou ao médico e só vou fazer a porcaria dos óculos porque já não consigo mais dirigir à noite.
Até parece que eu dirijo à noite.
Também estou de saco cheio de questionarem os meus motivos, será que ninguém percebeu que eu não tenho motivos, eu apenas sou. Na verdade, eu apenas deixo de ser.
Eu vou me importar se você for assaltado sim, porra, mas que merda ter que ficar provando isso! Será que já não basta a minha vida toda entregue a você? Ainda tenho que ficar dizendo que sim, eu me importo. Sim, eu vou fazer jantar para você. Sim, eu vou cozinhar pra você, mas quando estou com fome, não cozinho pra mim.
Que merda!
Que merda esse trabalho! Que merda ter esse dinheiro estúpido que não serve de droga nenhuma. Chego aqui já pensando na hora de ir embora!
Eu quero ir embora. Embora dessa faculdade louca. Não aprendo nada, virei uma preguiçosa que só sabe dormir.
Faculdade? Onde eu estou?
Onde está aquela menina estudiosa que não media esforços para chegar onde queria? Onde ela quer chegar? Onde está o vigor da minha juventude? Será que vinte míseros aninhos foram suficientes para que eu me desse por satisfeita das bebidas, do sexo, das drogas, de tudo? Hein?
Pior de tudo é pensar que ficarei com vergonha desse texto. Ficarei com vergonha quando me perguntarem se eu estou bem - é lógico que não estou - e ficarei com raiva dos poucos criativos que falarem que eu preciso melhorar - é lógico que preciso. Ficarei mais encabulada ainda porque sei que acharei que meu texto é ruim, pequeno, digno de uma menininha de 15 anos; acho que a imbecil da minha irmã teria as mesmas dúvidas e os mesmos problemas pouco sublimes.
Mas, a vida continua, eu finjo que estou feliz e vocês fingem estarem felizes pelo meu fingimento.
Uma grande hipocrisia.
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