É sempre você quem desliga o telefone. É sempre você que sente sono. Que desiste. Que corta o papo. Eu é que choro. Você não chora. Não sei porque. Acho que você não sabe. Acho que ainda há muito que você não sabe. Ainda há muito que eu penso saber. Agora, só sei que não sei. Você é complicado de entender, de penetrar. Não sei quem você é. Você não sabe quem eu sou. Na verdade, ninguém conhece ninguém. Ela até estava certa. Não há um interesse maior do que a conveniência. Ninguém procura saber mais do que é mostrado. Eu cansei de mostrar. Cansei de explicar. De procurar saber. Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Ai, papo de criança.
Lembra disso? Já faz tanto tempo, parece que foi ontem.
Parece que foi ontem que te vi, que gostei. Ontem eu ainda achava que o mundo era outro, que as pessoas eram felizes e que os rumos já estavam traçados. Os caminhos já tinham sido escolhidos. E eu vivia feliz o que tinha planejado viver. Não que eu não seja feliz hoje. Mas falta. Falta, meu bem, falta o deslumbre. Falta o mistério das coisas. Falta a total confiança de que tudo vai dar certo. Nem sei mais o que é certo. E parece que foi há pouquíssimo tempo, mesmo sem saber, eu tinha algo a seguir.
Agora não.
Agora eu queria que você não tivesse desligado o telefone. Agora eu queria pensar que ainda há um grande interesse. Não só seu. De todo mundo. Mas, é foda, se eu não me interesso, como vou pensar que alguém pode se interessar? Eu queria muito não chorar sozinha. Queria muito não chorar. Não sozinha. Eu quero ficar com sono. Quero desistir.
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