e quando você saiu do carro, eu não quis olhar pra trás. chorei mais um pouco. logo levantei a cabeça e pensei: "agora estou sozinha, tenho que seguir, dar partida no carro e voltar pra casa".
dirigi. passei por botafogo, laranjeiras, túnel.
eu não estava pensando, eu acho que eu nem estava dirigindo. não era eu. devia ser uma força estranha que me guiava, sem que eu soubesse que estava fora de controle.
a minha maior ilusão é pensar que tenho o controle das coisas.
não, eu não tenho. nem do carro que dirijo.
tanto que perdi a saída para a presidente vargas. você bem sabe disso, logo depois eu te liguei. eu nem soube descrever onde eu estava. por onde eu tinha ido. como eu deveria continuar? não sabia. eu te liguei várias outras vezes, perdida, cada vez mais, eu não sabia por onde estava dirigindo, estava sozinha. eram duas e meia da manhã.
eu nunca dirigi um carro de forma tão desnorteada. não tenho nenhum senso de direção.
parei num posto. pedi ajuda. abasteci o carro. depois de algumas explicaç~ies, descobri que estava bem perto da quinta da boa vista. tá, de lá eu sair ir pra casa, estou mais calma.
te ligo logo depois para dizer que está tudo bem, que eu já resolvi, não precisa mais ficar preocupado.
eu já havia me encontrado.
fiquei feliz e comecei a agradecer àquela mesma força estranha que eu pensei estar dirigindo o carro pra mim.
logo que cheguei em casa te liguei de novo. passamos umas boas horas ao telefone.
e eu não paro de pensar que me perdi. mas já encontrei o caminho de casa.
eu me perdi de verdade, nada do que falei até agora foi metafórico.
é óbvio que as considerações metafóricas viajantes vieram à mente: minha vida foi descrita nesta noite, eu erro, choro, me perco, te ligo, conto com vc, quero a sua ajuda, mas me acho sozinha. não pq vc não queira me ajudar, eu é que não consigo me deixar ser ajudada. acho que nem quero, eu tenho medo. mesmo assim, acho o caminho de volta. sozinha. o que me orgulha. eu sempre acabo pegando o caminho errado e perco o senso de direção, mas eu volto.
eu sempre volto.
mesmo depois dos caminhos errados, das neuroses, das preocupações, das coisas desnecessárias, do tempo enorme que se gastou falando, do pouco tempo que se teve silenciando.
mesmo depois de chorar, mesmo depois de fraquejar, de achar que nada pode me fazer voltar.
mas eu sempre volto.
neste momento estou no caminho de volta, perto da saída, muito confusa ainda, mas certa de que a minha casa está perto.
(espero que a festa tenha sido boa)
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