segunda-feira, setembro 01, 2003

Cheguei para assistir uma aula de eletiva. Não sei que horas eram, mas tudo estava meio cinza e frio, como está hoje. A turma estava lotada, acho que era bem naquela salinha onde se dá aula de PE, o que significa que estava realmente lotada, já que qualquer 10 pessoas enchem aquele cubículo.
Você estava bem na frente, parecia me esperar. Nos vimos. Eu te olhei com o maior carinho, como sempre te olho, você é muito especial. Você retribuiu e deu um sorriso. Que só você sabe dar. Sacana, um olhar de “eu estava te esperando, mas não dou a mínima para você ter chegado”. Como se me dissesse “Te quero, mas posso ter qualquer um, então você não importa tanto assim”. Engraçado como momentos relativamente pequenos podem ter uma riqueza de detalhes tão grande. Eu posso me lembrar da sua roupa, das suas mãos, das suas unhas, do seu cabelo.
A aula não tinha começado ainda. Mas você já ocupava sua carteira. Porém, levantou e veio me abraçar. Nossa, como eu queria te abraçar, que falta você faz. A gente deu um abraço curtinho, eu disse: “O que você ta fazendo nessa aula? Esse nem é o seu horário...” e você, com a maior doçura “eu preciso de mais créditos, fora que desisti do estágio na parte da tarde”. Respirou fundo. Continuou: “e fora que sinto sua falta, é uma oportunidade para a gente se ver”. Eu sorri, aquele sorriso meio sem graça, mas feliz. Você me abraçou de novo. E dessa vez, foi diferente. Cheirou meu pescoço, acariciou a minha nuca. Meu cheiro estava realmente bom, eu sempre vou para faculdade logo depois de tomar banho e meu shampoo tem um perfume ótimo. Mas o seu cheiro estava acusando algo diferente. Algo pelo qual eu sempre esperei, mas nunca tive coragem, nunca tive forças. Não queria te agarrar num canto de boate e fingir que nada tinha acontecido. O modo com que você me abraçou, o seu cheiro, o meu cheiro, tudo muito bom.
Você me deu um beijo no canto da boca. Não foi um beijo estalado como aqueles que a gente dá nos conhecidos, foi um beijo bom, sufocado, tímido, mas ao mesmo tempo provocante. Aliás, provocante você é. E provocante você estava. Muito.
Fomos para o lado de fora da sala. Ficamos conversando sobre amenidades, naquela grade que dá para o laguinho.
Eu prestava atenção em tudo, menos na conversa. Incrível como podemos ser seduzidos por detalhes. Detalhes que só nós percebemos. Parece que você estava mostrando aqueles detalhes só pra mim. Isso não me dava exclusividade nenhuma, eu sei. Eu nem estava preocupada com isso. Só sabia que eu já era sua. Seus olhos me encantavam, ficava imaginando suas mãos em mim, sua boca, o modo como ela se move, o quanto eu presto atenção nisso. Sua língua, seu corpo todo...
De repente, eu não sei bem como (acho que não me lembro) chegamos mais perto, o cheiro ficou mais forte, eu comecei a cheirar você, como se estivesse te acariciando com meu rosto. Estava até bom, mas fraco ainda. Coloquei minhas mãos na sua nuca, e puxei seus cabelos, com uma certa força. Não fazia a menor idéia do que você gostava, mas foda-se, se não gostar, eu não sei. Você agarrou meu braços e me puxou, enfiou as unhas na parte de dentro dos meus braços, me machucou, mas eu gostei. Depois de muito esperar, depois de muito querer, de muito te querer, a gente se beijou. Não foi romântico, não estou contando isso para ser romântica, mas aquilo foi único.
Minha boca na sua, sua língua, certa. A gente sabia bem o que estava fazendo. Me beijando, me apertando, me mordendo, você estava enlouquecendo, eu também. Não sei quanto tempo eu fiquei pensando no dia que isso aconteceria.
Não podíamos mais ficar no corredor. Entramos numa sala, aquela do primeiro período, enorme e escura, já estava anoitecendo. Nesse momento uma outra pessoa muito querida me ligou:
- Não vou poder chegar a tempo, tá o maior engarrafamento.
- Tá, tudo bem. (eu queria dizer foda-se, nada importa agora, mas essa pessoa não merece)
- Aconteceu alguma coisa? Você está estranha...
- É, eu acabei ficando com ela.
- Ela quem?
- A pessoa, “ela” é sem gênero.
- Ah, ela. Olha, não que eu goste, mas eu já sabia que isso ia acontecer, tudo bem. Acho que nem vou então.
- Você que sabe.

Eu contei. Você disse que já sabia, que achava até melhor contar.
Sala escura. Eu te beijo mais, sua boca é maravilhosa. Esqueço do mundo, mais uma vez. Começo a te beijar no corpo inteiro, te mordo, chupo, lambo, está realmente muito bom. Mas ainda estamos de roupa. A sua roupa deixava suas pernas à mostra. A minha não, eu estava de calça comprida. A nossa agressividade é tanta que eu bem acho que vou sair dali meio marcada, começo a pensar em explicações para dar aos outros. Mas é uma agressividade boa, eu gosto, você deve gostar também. Arranhão, puxão de cabelo, mordida. Você apertando meus braços, minha nuca, me beijando com força, sua língua mexia com força.
Comecei a tirar a roupa. Você também. Eu não podia te enxergar bem, estava escuro. Também nem sei se era o momento para ficarmos olhando. Já olhamos demais, é hora de sentir.

O telefone toca.
Eu acordo.

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